seg. nov 28th, 2022

Estudos apontam que quase 40% das puérperas tiveram depressão pós-parto na pandemia

Estudo conduzido em dois serviços de saúde da Universidade de São Paulo (USP), em 2020, revelou que 38,8% das mulheres que deram à luz nos hospitais públicos da capital paulista apresentaram sintomas de depressão pós-parto. O percentual corresponde a quase o dobro da taxa de estudos nacionais anteriores ao período de pandemia.

A depressão pós-parto é uma doença que se inicia algumas semanas após o nascimento da criança, podendo se estender sem limitação de tempo. Resumidamente, a mulher fica sem forças e energia para seguir sua rotina. A doença não possui causa única, mas pode ser explicada pela fase de puerpério – período após o nascimento do bebê, marcado por alterações físicas, hormonais e emocionais

“No decorrer da gestação, a mulher é submetida a altas doses de hormônios que afetam sua locomoção, raciocínio e memória. Após o parto, durante o puerpério, essa quantidade de hormônios cai rapidamente, o que pode desencadear transtornos pós-parto, como a depressão”, explica Yara Leite, gerente de Enfermagem do Hospital Bom Pastor, unidade própria da Pró-Saúde que atua como referência em Obstetrícia e Pediatria na região de Guajará-Mirim (RO).

Além da deficiência hormonal, a falta de uma rede de apoio e a sobrecarga materna, associadas ao medo de contágio pelo coronavírus e a necessidade de isolamento social – em decorrência da pandemia da covid-19 –, se destacam como motivos para a crescente taxa de depressão pós-parto no país.

A rede de apoio é um grupo composto por todas as figuras que os pais e, principalmente, a mãe, podem contar para cuidados com o bebê, suporte emocional e escuta. Culturalmente, os avós fazem parte da rede de apoio e, sendo esse o grupo de risco para a covid-19, sua ausência acabou por agravar o estresse constante e consequente quadro de depressão sofrido pelas mães.

Daniela Dias, psicóloga do Hospital Materno-Infantil de Barcarena (HMIB), unidade referência em atendimento à gravidez de alto risco no interior paraense, analisa a relação entre a pandemia e a taxa apresentada.

“No contexto da pandemia que enfrentamos, o medo do vírus se tornou um fator de risco para o desenvolvimento de estresse pós-traumático, que aliado à necessidade de isolamento em um momento muito marcante da vida, deixaram muitas mulheres sem amparo para seus pensamentos e angústias”, explicou a especialista.

Em 2020, Jéssica Mendes se tornou mãe pela primeira vez, no Materno-Infantil de Barcarena. Com o nascimento prematuro da filha em meio à pandemia, a jovem, de apenas 26 anos, precisou de auxílio para lidar com os novos sentimentos que surgiram.

“Com a gravidez e parto vêm mais nervosismo, ansiedade, insegurança e medo. Ser mãe antes da previsão de parto, em meio a uma pandemia, foi muito pra mim. Foi meu primeiro bebê e tive dificuldade em lidar com sentimentos. Você nunca se sente preparada para isso”, relatou à época.

Prevenção à depressão pós-parto

O diagnóstico precoce é a principal forma de se prevenir contra a depressão pós-parto. Por isso, é fundamental que os médicos estejam preparados e tenham condutas atualizadas e as mulheres pacientes possam identificar os sinais de alerta, para buscar ajuda profissional. Daniela explicou a lógica que envolve a depressão pós-parto e aponta os principais sintomas da doença.

“A tristeza não está relacionada só com o nascimento da criança, ela permeia todas as atividades que antes eram prazerosas para a mulher, desde assistir sua série favorita, a ir ao trabalho. Nesse caso, os sintomas mais comuns são sonolência, falta de energia, alterações no apetite e ansiedade, como crises de pânico e cuidado excessivo com o bebê”, destacou a psicóloga.

Amamentação é grande aliada

Além da prevenção, existem outras medidas de proteção como, por exemplo, a amamentação. Especialistas apontam que amamentar é fundamental nesse papel, porque além de fortalecer a conexão com o bebê, a prática beneficia a saúde mental da mãe devido à liberação de ocitocina, conhecido como “hormônio do amor”, que provoca sensação de bem-estar e relaxamento.

“Essa carga hormonal ajuda a mulher a se sentir mais feliz e auxilia na recuperação da depressão pós-parto. Entretanto, o processo de amamentação também demanda uma rede de apoio que a ampare e, consequentemente, ajudando na recuperação da doença”, ressaltou Yara.

Além da promoção do aleitamento materno, há outras dicas para ajudar na prevenção e proteção contra a depressão pós-parto:

  • Construir e acionar uma rede de apoio;
  • Ficar atenta às emoções;
  • Identificar casos de depressão pós-parto na família;
  • Realizar atividades físicas;
  • Manter a qualidade do sono e períodos de descanso;
  • Participar de grupos de mães;
  • Buscar por ajuda especializada.

Vale ressaltar que em casos mais graves de depressão, a mulher corre inúmeros riscos. Por isso, é sempre recomendado entrar em contato com profissionais da saúde, como médicos obstetras e psicólogos, que ajudarão na identificação da doença, e psiquiatras, responsáveis pelo tratamento da doença por meio de psicoterapia e medicamentos compatíveis com a amamentação.