seg. nov 28th, 2022

Entidade faz alerta sobre o uso desenfreado de antibióticos e dá 10 orientações para a utilização correta deste tipo de medicamento

Algumas atitudes comuns ao utilizar medicamentos — como não respeitar os intervalos ou tempo de tratamento e fazer escolhas por conta própria — podem ocasionar problemas de saúde.

No caso específico dos antibióticos, há uma consequência ainda mais grave quando não seguimos exatamente a prescrição médica: o desenvolvimento de bactérias super-resistentes.

“Quando se usa antibiótico sem necessidade, há um risco alto de resistência bacteriana”, explica Letícia Teles, gerente corporativa de Atenção Farmacêutica da Pró-Saúde, entidade filantrópica de gestão hospitalar.

“Essa resistência diminui as opções de tratamento e faz com que o paciente passe a utilizar antibióticos potentes para infecções que poderiam ser tratadas com antibióticos menos agressivos”, acrescenta.

Desde 2015, há uma crescente no desenvolvimento de resistência das bactérias aos antibióticos, fator potencializado durante a crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus.

“Muitas pessoas têm usado os antibióticos para tratar infecções virais, como os resfriados. Nestes casos, por exemplo, é necessário comprovar que o desconforto causado nas vias aéreas é provocado por uma bactéria, para que o paciente utilize este tipo de tratamento”, destaca Letícia.

Pesquisas sugerem uma prescrição exagerada de antibióticos durante a pandemia também em hospitais.

Um estudo internacional apontou que 70% dos pacientes internados por covid-19 foram tratados com antibióticos — mas a presença de coinfecções causadas por bactérias foi estimada em apenas 8% dos casos.

Ou seja, a maior parte dos pacientes que receberam antibióticos não tinham sinais de infecção por bactérias.

Paralelamente, dados do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do Brasil, mostram que entre 2019 e 2021, o índice de amostras de bactérias resistentes a antibióticos enviadas para análise no local aumentou mais de três vezes.

O alerta acontece na semana do Dia Mundial da Sepse (13/9). De acordo com o Ministério da Saúde, a Sepse, também conhecida como como infecção generalizada, é a principal responsável por óbitos dentro de hospitais. São cerca de 670 mil mortes no Brasil a cada ano.

A doença, tratada principalmente por antibióticos — quando causada por bactéria —, se torna, a cada dia, mais perigosa, já que muitos medicamentos conhecidos deixam de ser eficazes.

Nas mais de 20 unidades gerenciadas pela Pró-Saúde no país, que vão desde grandes centros urbanos até locais remotos, como a Amazônia brasileira, são desenvolvidas iniciativas voltadas para o uso racional de medicamentos, com destaque para o Programa Stewardship, focado no gerenciamento e intervenção no uso de antimicrobianos.

Com trabalho conjunto do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), médicos infectologistas, enfermeiros, microbiologistas e farmacêuticos clínicos, foram mapeadas oportunidades de adequação nas prescrições.

Esse trabalho refletiu na melhoria contínua e expertise no tratamento de infecções e, por consequência, reduziu custos para o serviço. Somente nos primeiros seis meses deste ano, a iniciativa já resultou na economia de mais de R$ 746 mil reais.

“Administrar o uso e compreender as influências dos antibióticos são preocupações permanentes”, diz Letícia. Ela explica que “indicadores como infecção hospitalar e mortalidade” estão diretamente associados às ações que são implementadas para redução de riscos no ambiente hospitalar”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que superbactérias causam cerca de 700 mil mortes anualmente, número que pode chegar a 10 milhões até 2050.

“A ampliação dessa resistência aos antibióticos é uma ameaça global, pois interfere diretamente na capacidade de tratar as infecções. Ainda hoje podemos destacar que o antibiótico é uma das maiores conquistas da medicina. Por isso, precisamos preservar sua efetividade”, complementa Letícia.

Por isso, ela acrescenta, que o uso e a indicação adequadas do antibiótico devem ser promovidos, não apenas pelos pacientes em casa, mas também pelos profissionais da saúde.

Confira 10 orientações essenciais para o consumo correto e consciente dos antibióticos:

Nunca use antibióticos sem indicação médica

Além dos riscos comuns como intoxicação, o uso indiscriminado de antibióticos colabora para o desenvolvimento de bactérias super-resistentes. Desde 2010, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) realiza o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas como antimicrobianos, a fim de evitar a automedicação.

Não reaproveite medicamentos de tratamento anteriores

Esse tipo de medicamento atua apenas contra infecções causadas por bactérias sensíveis ao fármaco específico, que atua exterminando ou interrompendo sua produção ou seu metabolismo. Assim, utilizar antibióticos de tratamentos anteriores não é recomendado. Infecções causadas por outros organismos, como vírus, parasitas, fungos e germes, não podem ser tratadas com o mesmo fármaco.

Faça o tratamento até o fim

No início do tratamento, parte das bactérias começam a ser eliminadas, ocasionando melhora pontual dos sintomas e a falsa impressão de que a medicação não é mais necessária. No entanto, após a suspenção do tratamento, as bactérias mais fortes começam a se multiplicar novamente, agora com o mapeamento do antibiótico utilizado, o que as torna mais resistentes.

Respeite os horários programados

Também é extremamente importante respeitar os horários de administração dos antibióticos. Após o horário, há risco de desenvolvimento da resistência bacteriana e retorno dos sintomas; e antes do horário, o paciente pode desencadear sintomas de intoxicação. Por isso, busque sempre orientação com médico ou farmacêutico.

Cuidado ao misturar medicamentos

Existem diversas classes de medicamentos que podem interagir de forma negativa com antibióticos. Por exemplo, o uso de antiácido pode diminuir a eficácia do antibiótico, já a combinação com anti-inflamatórios pode ocasionar problemas gástricos, como dores estomacais. Outro ponto é que alguns antibióticos podem diminuir ou cortar o efeito dos anticoncepcionais, já que interferem na absorção do medicamento.

Atenção na ingestão com alimentos e bebidas

O líquido mais indicado para ingestão dos antibióticos é a água. Utilizar leite, sucos, refrigerantes, chás ou café, pode comprometer a eficácia do medicamento. Além disso, alguns tipos têm sua absorção diminuída quando consumidos junto às refeições, por isso, é importante seguir as orientações da bula.

Cuidado com as bebidas alcóolicas

A interação com bebidas alcóolicas pode levar à diminuição da eficácia do medicamento ou torná-lo tóxico, já que ambos são metabolizados no fígado. O álcool pode tanto neutralizar, quanto potencializar o efeito do fármaco. Essa interação pode desencadear também o “efeito dissulfiram”, com sintomas como vômito, palpitações, suor excessivo, calor, hipertensão, cefaleia intensa e dificuldade respiratória.

Atenção ao armazenamento

Para que o medicamento conserve sua efetividade, deve ser devidamente armazenado. As apresentações em cápsula e comprimidos devem ser armazenadas em lugares sem ação direta de sol, calor e humidade. Os em suspensão, após reconstituído, devem ser armazenados em local com temperatura ambiente, entre 15° a 30°C, sempre longe de banheiro e cozinhas. Os que precisam de refrigeração após aberto, em temperatura de 2° a 8°C, devem ficar isolados dentro da geladeira, para evitar contaminação cruzada com alimentos.

Faça o descarte correto dos medicamentos

Após término do tratamento o indicado é descartar a sobras. Algumas farmácias comunitárias e postos de saúde fazem esse recolhimento, contudo o ideal é verificar com o serviço de saúde da sua região como é feita esta coleta.

Observe a evolução dos sintomas

Ao iniciar o uso de antibióticos deve-se observar possíveis reações alérgicas, como coceiras, erupções na pele, manchas vermelhas e dificuldade respiratória. Neste caso o indivíduo deve procurar imediatamente um médico, já que a demora pode agravar ainda mais o quadro. O médico poderá avaliar a continuidade ou substituição da medicação.